Zona Central da Cidade de Angra do Heroísmo nos Açores

1983 | Critérios (iv) (vi)

Visão geral

A cidade de Angra do Heroísmo nasceu no coração do mar Atlântico, situada na encruzilhada das grandes correntes marítimas, essenciais para a comunicação intercontinental. Situa-se na ilha Terceira, arquipélago dos Açores, ao longo da sua costa sul, junto a uma larga enseada, protegida por uma península e algumas elevações adjacentes. Surgiu durante o processo de expansão europeia, iniciada no começo do século XV, e que ficou conhecido como época dos Descobrimentos.

Angra foi construída numa interseção entre a visão do mundo medieval europeu e os novos preceitos do urbanismo ultramarino moderno. Trata-se de uma das primeiras cidades edificadas com base num traçado de simbiose entre a geografia do terreno e uma matriz ortogonal, tendo vindo a crescer em torno de dois eixos centrais, correspondentes aos seus principais arruamentos. Assim, Angra é, desde a sua génese, uma combinação de mundos, que mais tarde se refletiram na multiculturalidade das suas gentes, e na mundividência da sua história.

Para melhor compreender a importância do património cultural de Angra do Heroísmo, é necessário entender o seu papel enquanto Escala Universal do Mar do Poente. O nome da cidade, de acordo com a tradição, ficou a dever-se à sua larga baía, propícia à atracagem das grandes embarcações, que mantiveram as carreiras atlânticas durante séculos.

Assim, desde o seu começo, foi espaço de passagem obrigatória, onde as Rotas da Prata e das Especiarias vieram abastecer, no regresso à Europa, e onde mais tarde passaram os vapores e os grandes couraçados, com o mesmo propósito. Ali se reuniram episódios históricos referentes ao perigo do corso e à intriga do comércio, bem como à dureza da guerra e a alguns dos principais eventos da geopolítica mundial de anos recentes.

Espelho dessa importância é o elevado número de ocorrências de naufrágio registados ao largo da baía de Angra, contando com mais de cem já devidamente documentados pela investigação histórica. A enseada foi classificada como primeiro parque arqueológico subaquático do país, em 2005, e é parte fundamental do conjunto do património cultural subaquático dos Açores que foi designado Marca do Património Europeu, em 2020. A gestão desses bens, por parte do Governo Regional dos Açores, foi também reconhecida pela UNESCO, em 2019, com a distinção de Melhores Práticas para a Proteção do Património Cultural Subaquático. Por sua vez, o potencial de investigação da baía foi ainda integrado numa Cátedra para a Biodiversidade e Sustentabilidade em Ilhas Atlânticas, da Universidade dos Açores, em 2024.

Angra do Heroísmo edificou-se com base nessas raízes multiculturais e à sombra da monumentalidade do património atlântico, que ali se foi construindo. De entre a longa lista de fortes, igrejas e outros espaços de relevo, destaque para a fortaleza de São João Baptista, uma das maiores do seu género, em todo o mundo, e que foi implantada na península do Monte Brasil, parte integrante da rede mundial de Geoparques da UNESCO, desde 2013. Igual destaque para a sua igreja matriz, sede da diocese no arquipélago, ou para alguns solares, palácios e antigos conventos, que permanecem não obstante a terrível catástrofe sísmica de 1 de janeiro de 1980, que destruiu uma parte considerável da cidade.

Implantada à beira-mar, junto ao imponente Atlântico, com um passado de rotas marítimas, e um presente de resiliência histórica, Angra do Heroísmo é uma cidade de cruzamentos, onde a Europa abriu os braços ao resto do mundo, e permanece um ponto de conexão essencial entre o património cultural, o património ambiental e o progresso sustentável da Humanidade.